HISTÓRIA DA METALURGIA JAPONESA – KATANA

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METALURGIA JAPONESA.

Vamos falar  sobre metalurgia japonesa. Mais precisamente a antiga metalurgia japonesa. Claro que este é um tema bem amplo, portanto vamos nos focar na construção artesanal da lâmina que é símbolo do Japão: a antiga espada japonesa, ou katana.
Katana é a palavra que significa “espada” na língua japonesa. Também é usada para designar especificamente um tipo de espada, usada a partir dos anos 1400: uma espada curva, longa, de fio único, empunhada tradicionalmente pelos samurais. Pronuncia-se [kah-tah-nah] na leitura do kanji (caracteres japoneses), e foi extra-oficialmente adotado o mesmo nome pela maioria das línguas ocidentais, como o inglês e o português. A katana estava sempre acompanhada do wakizashi, que é uma espada similar, mas menor (mais curta) que a katana original. Ambas foram usadas pela classe guerreira da época: os samurais.

Também existia o tantô, que era uma versão menor ainda (cuja forma muitos aqui já conhecem). Este conjunto de armas, formado pela katana e pela wakizashi era chamado de daishô, que significa literalmente “grande-pequeno”, e que era o símbolo de status e honra pessoal do samurai. A lâmina longa (katana) era usada para combate em campo aberto, enquanto a wakizashi era uma arma de “backup”, usada em combate próximo ou em ambientes fechados e pequenos, ou ainda usada no seppuku, uma forma de ritual de suicídio.


Diferentemente de algumas espadas ocidentais, que eram usadas como arma perfurante ou de concussão, a katana era usada principalmente para cortar. Sua curvatura e ausência de fio duplo ainda permitiam golpes concussivos (para empurrar apenas), com o dorso da lâmina, sem provocar cortes. Sua empunhadura é longa, permitindo o uso de ambas as mãos, mas nota-se inúmeras gravuras históricas japonesas onde existem samurais que as empunhavam com apenas uma mão. Este aspecto variava conforme a técnica usada pelo samurai, não sendo uma regra absoluta. Ela também era tradicionalmente empunhada com o corte para cima.

A ESPADA NA SOCIEDADE JAPONESA.

A história do Japão é intimamente ligada ao desenvolvimento das katana. Existia todo um significado por trás da maneira com que a espada era carregada, guardada, limpa e afiada pelo samurai. Um exemplo: um samurai que adentrasse a casa de alguém mostrava o seu estado de espírito conforme a maneira com que ele carregava a katana; se no momento de ajoelhar e saudar o anfitrião, ele mantivesse a bainha ao lado do corpo, de uma forma que a espada pudesse ser rapidamente desembainhada, denotava uma suspeita de agressão ou hostilidade no ambiente. Se o samurai colocasse a espada ao seu lado no chão, ou ajoelhasse com ela sob o corpo, denotava uma honra e importante aspecto de etiqueta do samurai para com o seu anfitrião. Em sua própria casa, o samurai guardava o daishô (katana e wakizashi) em uma espécie de pequeno suporte de madeira chamado katana-kake, que é aquela peça que vemos hoje em dia em lojas por aí. A katana era sempre guardada na parte de cima, e o wakizashi embaixo.
Entretanto, deve-se ressaltar que até o período Edo (divisão de período histórico na história do Japão), os samurais não usavam a katana como sua única arma. Eles usavam primeiramente o arco e flecha, depois a lança, e daí sim a espada, como última alternativa em uma batalha. Por isso, os samurais possuíam proficiência e habilidade em todas as armas da época.

A katana era considerada a alma do samurai. Na história do Japão feudal, nota-se que apenas os samurais possuíam autorização para carregar uma katana, e se houvesse um camponês carregando uma, era motivo suficiente para o camponês ser morto e a espada confiscada. Por causa disso, alguns ronin (samurais sem senhores/líderes) eram forçados a venderem as suas katanas, e assim, eram considerados “sem alma” pelos samurais. Este conceito de que a espada era a alma do samurai tem suas raízes no início do shogunato Tokugawa. Na época, sempre houve uma reverência pelas espadas, mas esta atribuição de valor, intitulando-a de “alma”, residiu na necessidade do shogun (o senhor feudal do Japão antigo) presentear seus nobres e mantenedores com algo de grande valor.

Daí criou-se o costume de presentear nobres e seus familiares com preciosas e valiosas katanas em datas como casamentos e aniversários. Como conseqüência, a habilidade de reconhecer e avaliar as espadas através do seu cuteleiro, da data em que foi forjada e do material empregado foi altamente valorizada nesta época. As espadas mais antigas, forjadas por cuteleiros e mestres de renome, eram reservadas como presentes especiais, particularmente para o Shogun e para a sua família. Agora, imaginem a qualidade das espadas que os shoguns recebiam de seus vassalos!


HISTÓRIA DA ESPADA JAPONESA.

De acordo com uma antiga lenda, a espada japonesa do jeito que conhecemos hoje em dia foi inventada, pela primeira vez, por um cuteleiro chamado Amakuni, em meados de 700 depois de Cristo. Diz-se também que o mesmo cuteleiro foi o pioneiro do processo de forjar “dobrando” o metal. Na realidade, o processo de forjar o metal dobrando-o e as lâminas de fio único foram introduzidas no Japão como conseqüência do constante comércio com a China.

No decorrer do tempo, algumas outras modificações ocorreram, como a definitiva adoção do fio único, e a forma curva da lâmina, cujo formato era o melhor para o movimento de “cortar deslizando” (slashing). Isto também se refletiu nos estilos de kenjutsu (técnica de espada) criados neste período, como o Kashima no Tachi, o Kanto-nanaryu (As sete tradições da região Kanto) e, em Kyoto, o Kyo-hachiryu (As oito tradições da capital). Em meados do século XII, inicia-se uma guerra civil de grandes proporções no Japão. Excelentes espadas foram fabricadas nesta época, mas a grande demanda por armas e a terrível violência dos conflitos fez com que as técnicas refinadas e artísticas do período Kamakura (considerado o período de ouro da construção de espadas) fossem abandonadas em nome de armas mais descartáveis e comuns. Havia também o problema do tempo: enquanto uma espada refinada e com acabamento artístico levava mais tempo para ser forjada, a guerra demandava um grande número de armas, sem acabamento nenhum, o mais rápido possível.

Em meados do século XIII, as invasões mongóis no Japão forçaram a uma nova evolução no design da espada japonesa. Forçados a abandonar a tradicional guerra à distância (arco e flecha) pelo combate corpo a corpo, muitos samurais acharam que suas espadas eram muito delicadas para serem usadas em movimentos de estocada, principalmente contra a forte armadura de couro usada pelos invasores mongóis.
Em resposta, os cuteleiros japoneses adotaram técnicas de forja de forma a comprimir o metal ainda mais na estrutura da lâmina, tornando-o mais denso. Descobriram que as lâminas com linhas de têmpera mais espaçadas eram mais belas, esteticamente, mas frágeis no combate (quebravam-se mais facilmente). Diante destas observações, a grande maioria dos cuteleiros japoneses começou a aumentar consideravelmente o número de dobras no momento da forja, inclusive aumentado a grossura da lâmina no dorso, e criando também uma ponta mais afiada e fina, justamente para penetrar as armaduras de couro dos soldados mongóis.


Novamente em tempos de paz, os cuteleiros e mestres retornaram à técnica que priorizava o lado artístico e refinado de forjar espadas, e foi no início do período Momoyama que houve o retorno às criações de altíssima qualidade.

Classificações da espada japonesa                                                       Classificação pelo comprimento

Todas as espadas japonesas são forjadas, em geral, por métodos similares. Em razão disto, todas elas são muito parecidas. O que, geralmente, diferencia as diferentes espadas é o seu comprimento. As espadas japonesas são medidas em uma unidade chamada shaku; um shaku equivale aproximadamente a 30 centímetros, ou a 1 pé. Sendo assim, temos:

 Uma lâmina menor que 1 shaku é considerada um tantô (faca).
 Uma lâmina maior que 1 shaku, mas menor que 2 shaku, é considerada uma shotô (espada curta). A wakizashi e a kodachi estão nesta categoria.
 Uma lâmina maior que 2 shaku é chamada de daitô, ou espada longa. Essa é a categoria da katana. Entretanto, a espada só é chamada de katana (65 cm) se for usada na cintura, ao lado do corpo, com o fio virado para cima. Se ela estiver suspensa por cordinhas, pendurada em um cinto, ela é chamada de tachi (75cm); a tachi é usada com o corte para baixo.
 Existiam ainda as lâminas com medidas maiores que 3 shaku (muito raras), usualmente carregadas nas costas, chamadas de odachi ou nodachi. A palavra odachi, às vezes, é também usada como sinônimo para katana.

Classificação pela escola e província.

Cada província do Japão é conhecida pelas suas escolas de forja, e consequentemente pelas espadas que lá são produzidas. Percebe-se, portanto, que cada região do país possuía sua escola, com tradição e características (marcas registradas) próprias. As mais famosas escolas eram:

 Escola de Soshu
 Escola de Yamato
 Escola de Bizen
 Escola de Yamashiro
 Escola de Mino
 Escola de Wakimono

Classificação pela data de fabricação..

Podem-se também classificar as espadas japonesas de acordo com o critério temporal. Entre os anos de 987 a 1597, as espadas eram kotô: era o auge da cutelaria japonesa (período de ouro). Nesta época, a manufatura artesanal de espadas alcançou o seu auge, com a construção de modelos soberbos e míticos. No começo deste período, as lâminas possuíam curvatura mais próxima da guarda e do cabo. Com o passar do tempo, o centro da curvatura destas lâminas deslocou-se para mais próximo da ponta da lâmina.

Espadas construídas entre 1597 a 1760 são conhecidas por shintô, ou “novas espadas”. Estas são consideradas inferiores à maioria das kotô, e sua época de construção coincide com a degradação das antigas técnicas japonesas. Espadas construídas no estilo kotô entre 1761 e 1876 foram chamadas de shinshintô, ou “novas novas espadas”. Elas eram consideradas superiores à maioria das shintô, mas piores do que as kotô originais.
As espadas construídas atualmente de acordo com os métodos tradicionais são chamadas de shinsakutô, ou “novas espadas manufaturadas”. De modo alternativo, também se pode usar o termo shinken para definir as espadas reais, em contrapartida ao termo iaito, que são as espadas de treinamento.

Pode-se citar ainda uma classificação das espadas pelo modo de portar. Conforme os diferentes modos de portar a lâmina presa ao corpo, dá-se um nome específico. Entretanto, para resumir o texto, não entraremos em maiores detalhes acerca deste tópico específico.

Forja da Espada Japonesa

As katana e a wakizashi eram sempre forjadas levando em conta diferentes aspectos, e disso resultava sempre em diferentes perfis, diferentes dureza da lâmina, e uma variedade enorme de “grinds” – o ângulo/forma existente entre o fio e a lâmina.


As wakizashi não eram simplesmente uma katana em tamanho menor. Elas eram forjadas em formas diferentes, algumas até raras, em comparação com a katana.

O daishô (conjunto formado pela katana e pela wakizashi) quase nunca era forjado junto. Se um samurai não podia comprar o daishô completo, era comum que ele comprasse apenas uma das espadas. Por isso, era normal ver um daishô formado de espadas diferentes, forjadas por diferentes cuteleiros. Mesmo se um daishô tivesse as duas espadas forjadas pelo mesmo cuteleiro, estas não eram pares. Por isso, atualmente, daishô originais formado de espadas-pares são incomuns e valiosíssimos, especialmente se eles forem de épocas antigas, já que atualmente é normal encontrarmos espadas construídas em pares, simulando um daishô real.
Autênticas espadas japonesas são muito raras hoje em dia. Algumas são verdadeiras antiguidades (e obras de arte), e por isso, valem muitos milhares de dólares.

Em japonês, a bainha da espada é chamada de saya, e a guarda, geralmente trabalhada à mão, constituindo uma obra de arte à parte, é chamada de tsuba. A nomenclatura de algumas outras partes pode ser melhor observada na
Composição.


A composição do aço usado na katana variava de cuteleiro para cuteleiro, e também na qualidade do minério de ferro usado. Uma das composições mais famosas era a usada para fabricar as shinguntô durante a Segunda Guerra Mundial.

Elemento %

Carbono (C)                   0.1 – 3
Cromo (Cr)                    0
Manganês (Mn)            0.11
Níquel (Ni)                    0
Molibdênio (Mo)         0.04
Vanádio (V)                  0
Tungstênio (W)           0.05
E ainda:
Cobre                            1.54%
Titânio                         0.02%

A alta porcentagem de carbono dava robustez à lâmina, enquanto o silício (Si) aumentava sua flexibilidade e a capacidade de suportar golpes.

Construção

A forja de uma espada japonesa normalmente levava dias ou semanas, e era considerada uma arte sagrada. Como qualquer processo complexo de construção, ela sempre envolvia muitos artesãos, cada um altamente especializado na construção de uma parte da espada. Assim, existia o cuteleiro que forjava a lâmina, um segundo cuteleiro especializado em dobrar a lâmina, um especialista em polimento, e um outro para a afiação. Normalmente, também participava um artista especializado para construir a bainha, outro para esculpir a tsuba, e assim por diante.
A parte mais importante de todo esse processo era a forja e a dobra do aço. As espadas japonesas eram construídas pelo método chinês de esquentar a lâmina, dobrar e martelar, repetidamente. Para nossa curiosidade, o processo que muitos cuteleiros executam em suas oficinas hoje em dia (esquentar, dobrar, martelar) surgiu na Índia, na China e na Arábia, sendo impreciso apontar a primeira origem. Esta técnica tornou-se popular devido à capacidade de melhorar o metal impuro usado na época. O processo de esquentar, dobrar e martelar o aço, no Japão antigo tinha como vantagens:
Eliminar as bolhas internas do metal.
Tornaná-lo homogêneo, espalhando o carbono uniformemente por ele, aumentando sua robustez e diminuindo o número de pontos fracos na lâmina. Queimar as impurezas do metal, melhorando a qualidade do aço japonês.
Contrário à crença popular, a qualidade do aço não é proporcional ao número de dobras e marteladas no momento de sua forja. Uma vez que as impurezas foram queimadas e a proporção de carbono foi homogeneizada, o contínuo “dobrar-martelar” vai apenas fazer a lâmina perder carbono, deixando o aço mais macio e, conseqüentemente, sem capacidade de retenção de corte. Na prática, era incomum encontrar espadas com mais de 12 dobras. Uma lâmina dobrada 12 vezes apresentava mais de 4.000 camadas internas no aço. Mais do que isso, a existência de mais camadas ou dobras não iria formar uma espada melhor; o controle da proporção de carbono na lâmina era muito mais eficaz na funcionalidade da lâmina. Os melhores resultados, de acordo com registros históricos, ocorreram em lâminas dobradas de 8 a 10 vezes.

Uma das regras que existiam na época era ainda que as espadas japonesas deveriam ter apenas um corte (fio único). Isso significava que o dorso da lâmina poderia ser confeccionado de modo a dar maior robustez em sua construção final, e os japoneses usaram isso com maestria.
A têmpera do aço não era feita do modo europeu; a flexibilidade e a robustez da lâmina dependia da têmpera e da quantidade de calor usada no processo. Se o aço fosse esfriado muito rápido, a partir de uma alta temperatura, ele se tornava martensita (grãos microscópicos de cristais surgiam no aço, formados a partir de átomos de carbono que não se dissiparam devido ao choque térmico) que era muito duro, mas quebradiço.
Em contrapartida, se o aço fosse esfriado lentamente, a partir de uma temperatura inicial bem mais baixa, ele se tornava perlita (estrutura microscopia lamelar composta de camadas de ferrita, formada a partir de uma reação eutética), que deixava o aço mais flexível, porém incapaz de manter-se afiado.
Então, para controlar a temperatura de resfriamento, a espada era pintada com camadas de argila (usava-se um pincel), sendo que uma camada fina era posta imediatamente sobre o fio e permitia que resfriasse rapidamente, deixando-o mais duro (martensita); uma camada mais grossa era aplicada sobre o restante da lâmina, provocando um resfriamento mais lento, deixando o aço mais macio, e dando à lâmina a flexibilidade desejada (perlita).
A têmpera diferenciada, dorso/ perlita e fio/ martensita, resultava na contração da lâmina formando a curvatura característica das katanas porque o arranjo cristalino martensítico caracteristicamente assume maiores volumes que o perlítico. Se alguma parte do processo tivesse sido feita de forma errada, a curvatura da lâmina no momento do resfriamento em líquido iria ser maior ou menor, reta ou torta, empenando e inutilizando a lâmina.
Abaixo, podemos notar um diagrama demonstrativo dos diferentes tipos de aço que formavam uma mesma lâmina, e seus diferentes graus de dureza e flexibilidade:

Decoração

Quase todas as lâminas eram decoradas, mas um grande número foi decorado em partes não-visíveis da lâmina. Quando a lâmina era esfriada e a argila removida, a lâmina apresentava riscos e pequenas incisões nela. Uma das mais importantes marcas da lâmina eram feitas neste momento: as “file markings” (marcas de arquivo). Eram marcas feitas na base da lâmina, próxima a tsuba, e cobertas por uma peça metálica ou de madeira de formato quadrado, a tang. Esta parte da lâmina (que se prolongava da base da lâmina até o fim do cabo) nunca deveria ser limpa; se isto ocorresse, a lâmina pode perder mais da metade de seu valor. O propósito disto é checar a real idade da espada e verificar como o tempo agiu na lâmina, afinal, esta é uma parte da lâmina “protegida”, que nunca era limpa, polida ou afiada.


Algumas outras marcas eram apenas estéticas, como assinaturas de seus artesãos, provérbios ou inscrições louvando deuses, dragões ou outros seres fantásticos da crença da época. Ainda existia, em vários modelos, uma espécie de canaleta escavada na lateral da lâmina, em sentido longitudinal, cuja função básica era tornar a lâmina mais leve (pela retirada de uma parte do metal) e fazer um som intimidador enquanto ela cortava o ar, em um golpe dado com força. Esse som era chamado de tachikaze.

Diferente da crença atual, estas canaletas laterais da lâmina não existiam para fazer o sangue do oponente fluir em maior facilidade em um golpe de estocada. Muita gente acredita que estas canaletas existiam para o sangue da vítima fluir mais facilmente ou para diminuir o barulho quando as lâminas eram puxadas de volta, após um golpe de estocada no corpo de um inimigo, mas esta é uma crença equivocada. Naquela época, essas canaletas existiam apenas para diminuir o peso da lâmina, ainda mantendo sua integridade estrutural e robustez. Além disso, as canaletas (tachikaze), que eram escavadas sempre em ambos os lados da lâmina, produziam um som característico sibilando no ar, conforme mencionado acima, no momento do golpe. Se o artesão construtor da espada ouvisse apenas um assovio, ele iria saber que apenas uma canaleta estava fazendo o som. Dois assovios indicariam que ambas as canaletas ou apenas uma delas + o fio estavam produzindo o som. O correto seria a espada produzir o som de 3 assovios ao mesmo tempo (das duas canaletas mais o fio). Se isso acontecesse, o artesão saberia que sua espada estava perfeitamente construída, com o ângulo correto entre as laterais da lâmina e o fio. Ou seja, além de estético, estas canaletas ajudavam o artesão na construção da espada.
Por causa deste assovio da lâmina, dizem que os ninjas carregavam espadas que não possuiam estas canaletas (pelo menos quando estavam em missões de espionagem), por causa do som característico, que iria demonstrar a presença do ninja no momento do golpe.

Polimento.

Quando a forja da lâmina estava completa, os artesãos enviavam-na a um polidor chamado togishi, cujo trabalho era polir o aço até ele ficar uniforme e brilhante. Polidores também eram responsáveis pela afiação das espadas (por isso, um afiador era chamado de Polidor de Almas). Este trabalho de polimento e afiação levava horas e até dias, enquanto o polidor usava diferentes tipos de pedras no serviço. Polidores de antigamente usavam 3 tipos de pedras diferentes, enquanto que os polidores atuais usam até 7 tipos de pedras diferentes. Os métodos de polimento modernos só foram usados e descobertos após 1600.
Na maioria das vezes, este trabalho de polimento e afiação levava mais tempo do que a forja da lâmina em si, e tornava a lâmina mais bonita, enquanto que um trabalho mal executado poderia provocar danos permanentes à lâmina, inutilizando por completo o trabalho do artesão que a forjou.
Existem dois tipos de polimento: o hadori e o sashikomi. Hadori é o método moderno, inventado nos últimos 100 anos, que deixa o fio (hamon) mais claro e o resto da lâmina mais escuro. Hadori é como uma maquiagem, que melhora o aspecto visual e estético do fio e da lâmina. Já o sashikomi é o método antigo, que não destacava tanto a divisão entre o fio (hamon) e a lateral da lâmina. Este método revelava melhor as camadas do aço, visíveis na lateral da lâmina.


Uma das maneiras de avaliar uma espada é através de seu polimento. O polimento revela a estrutura cristalina da lâmina e o hamon (erroneamente chamado de “linha de têmpera”), que é a linha onde o aço mais duro do fio desaparece dentro do aço mais macio do dorso da lâmina. Não podemos confundir com o falso hamon, feito nas lâminas comerciais de hoje com o uso de ácidos e diferentes tipos de pedras de polimento. O verdadeiro hamon é intrínseco à lâmina; e uma característica estrutural dos diferentes graus de dureza do aço, na mesma estrutura de uma única lâmina.

O padrão de desenho do hamon é determinado pelo modo com que a argila foi colocanda com o pincel, no momento de resfriar a lâmina, e variava de acordo com a técnica de cada artesão cuteleiro. Cada artesão ou escola também possuía um hamon preferido, o que também significa uma espécie de assinatura na lâmina. Pelo hamon podemos determinar a velocidade de resfriamento da lâmina, a temperatura e até a quantidade de carbono presente na composição do aço.

Bainha.

Depois as lâminas eram enviadas para um outro artesão, especialista na confecção de bainhas. A confecção delas em si não era uma tarefa simples. Basicamente, existiam dois tipos de bainhas, que eram construídas mais ou menos da mesma maneira. Uma era a shirasaya, que geralmente era feita de madeira e era considerada como uma “bainha de descanso”, ou seja, a bainha em que você armazenava a espada em sua casa. A outra bainha, que era mais decorativa e usualmente levada na guerra, era a jindachi-zukuri ou a buke-zukuri, com o seu nome dependendo da forma com que a espada e bainha era
colocada no obi (cinto) suspendida por faixas de tecido ou couro. Ainda existiu a forma de bainha shin-gunto, que foi muito usada pelos militares durante o século XX (2ª Guerra Mundial), mas eram com espadas construídas de forma industrial, portanto, de baixa qualidade, e por isso, não vamos entrar em pormenores neste estudo.

Uso.

Como já dissemos, a espada era considerada como uma arma secundária até o período Kamakura (1185-1333), usada no campo de batalha apenas depois do arco e flecha e da lança. Durante o período Kamakura, a tachi (precursora da katana) tornou-se a arma primária no campo de batalha, usada pelos samurais da cavalaria montada. Entretanto, durante o período Edo, samurais começaram a lutar a pé, sem o uso de armaduras, e por isso, precisavam de uma arma que fosse leve e precisa para melhor combate corpo a corpo. Daí surgiu a katana como conhecemos hoje.
As armaduras e inimigos variavam com o tempo, por isso, os formatos das lâminas mudaram de um perfil pesado e robusto para perfis mais leves e rápidos, com diferentes aplicações no campo de batalha. As lâminas mais pesadas eram feitas para combates pesados, lentos, com a presença de armaduras (guerra), enquanto que lâminas mais leves eram usadas em combates leves, onde priorizavam a velocidade e precisão, geralmente sem o uso de armaduras ou qualquer outra arma (duelos).
Em certas eras, a espada era mais longa e era usada enquanto o samurai estava montando em um cavalo. Ao mesmo tempo, ainda existiam os samurais que iam a pé, ao lado de um cavaleiro, empunhando espadas curtas katate-uchi; wakizashi ou kodachi eram usadas apenas na luta com uma mão só (empunhadura com uma mão).
Os testes das espadas, chamado tameshigiri, era praticado em uma infinidade de materiais (incluindo pessoas), para testar o poder de corte e afiação das lâminas, antes da mesma lâmina ir para o combate.
Comparações com espadas de outras culturas
A espada japonesa desenvolveu, nos últimos mil anos, uma aura de respeito e medo devido ao seu poder de corte e à sua efetividade no campo de batalha. Entretanto, durante o século XX a sua reputação como uma arma superior aumentou mais ainda, devido a alguns mitos sobre suas reais capacidades e características.
O minério de ferro no Japão era popularmente considerado como o de melhor qualidade para a construção de espadas (devido à fama das espadas), mas hoje em dia, sabemos que o minério de ferro do ocidente é superior devido a sua pureza e robustez. Certos tipos de armas, como as produzidas na cidade de Toledo, na Espanha, são de altíssima qualidade (devido ao minério de ferro e ás propriedade físico-químicas da água do rio Tejo), sendo que os espanhóis produziam grandes quantidades de lâminas a um custo baixo, e sem detrimento da qualidade, devido a grande disponibilidade de minério de ferro na Europa. No Japão, devido à escassez do minério de ferro, a técnica de construção foi se apurando cada vez mais, pois não era permitido errar e desperdiçar o minério de ferro. Então devido a essa escassez, a técnica de siderurgia e construção japonesa tornou-se extremamente precisa e eficiente, resultando na excelência de suas espadas.
A diferença entre a katana e certas espadas de outras culturas variava de acordo com o uso e com as demandas históricas da época em que elas foram construídas. Algumas espadas européias eram desenhadas especificamente para um tipo de combate. Katanas eram capazes de danificar a armadura japonesa de várias formas: na era Koto (quando predominava o uso de armaduras), as espadas Shobu Zukuri eram desenhadas de forma mais curva e
grossa, para ter maior penetrabilidade da armadura, e certas armas como a yari (ponta de lança) eram favorecidas, pois tinham maior poder de penetração, e conseqüentemente podiam causar um ferimento fatal, mesmo em um samurai usando armadura completa.

YARI.


Já as espadas confeccionadas durante o Período Shinto possuíam lâminas mais
finas e levemente menos curvadas, pois eram usadas em lutas contra um oponente que não usava armadura.
Katanas foram produzidas com um método de forja que resultava em um fio duro em uma estrutura macia e flexível. A maioria das espadas de outras culturas (francesas, inglesas, espanholas) possuía uma dureza igual por toda a lâmina. Ambos os tipos possuíam suas vantagens e desvantagens; um fio duro normalmente mantém mais o corte e afiação, mas possui uma tendência a quebrar-se com mais facilidade, enquanto que um fio macio (mole) perde sua afiação mais rapidamente, mas é mais resistente a fraturas em sua estrutura. Na katana, o corpo macio sustentava o miolo duro e o fio da lâmina, deixando a espada inteira mais flexível e resistente a quebras. Em alguns testes modernos, uma katana forjada corta no meio projéteis de calibre .45 ACP disparados contra o seu fio, sem apresentar nenhum dano estrutural na lâmina. Existem até testes documentados em vídeo de uma katana cortando algumas balas calibre .50 BMG antes de quebrar no meio (os testes estão todos documentados no site YouTube – recomendo a todos!).

Ao assistir tais testes, podemos notar em câmera lenta que a bala é cortada perfeitamente ao meio, sem desviar a sua trajetória. Essas características mistas de dureza e flexibilidade são resultados das já mencionadas estruturas físicas do aço em martensita e perlita, características que não podemos encontrar em nenhuma espada ocidental.