Karate-Dō: do Japão para o Mundo

Príncipe Hirohito

Príncipe Hirohito

Em 1921, numa viagem do Príncipe Hirohito, a comitiva imperial acabou fazendo uma breve para- da em Okinawa. Para receber o futuro Imperador, os habitantes de Okinawa prepararam uma grande recepção, onde, entre as atividades, estava prevista

uma apresentação de Tō-de (FUNAKOSHI, 1999).

Neste episódio, Gichin Funakoshi estava presente com seus alunos da escola municipal,  deslumbrando o jovem príncipe com uma demonstração de Embu (luta combinada entre dois ou mais karate-kas, uma espécie de coreografia).

As ótimas impressões causadas pela apresentação renderam aos oquinauenses um convite para

demonstrar o Tō-de no Japão continental, na ‘1ª Exibição Atlética Nacional’, evento promovido pelo Ministério da Educação do país (NAKAZATO et al.,2003).

Naquela oportunidade, Funakoshi e seu grupo foram à Tóquio realizar uma nova demontração para diversas autoridades japonesas e para o grande público. Curioso, no episódio, foram os uniformes: hachimaki e camisetas (sim! “T-shirts” ocidentais!)

Gichin Funakoshi

Gichin Funakoshi

brancas (apenas Funakoshi usou um uwagi branco), hakama pretos compridos até metade das pernas (que no período feudal designava os guerreiros de classe mediana)  e longos bo (bastões de madeira usados nas artes marciais japonesas).

Daí em diante, Funakoshi não conseguiu mais retornar à Okinawa, sendo diversas vezes persuadido por vários grupos a permanecer no Japão ensinando Karate. Até no Instituto Kōdōkan, fundado por Jigorō Kanō, Funakoshi-Sensei  permaneceu ensinando a pedido deste (STEVENS, 2005). Publicou ainda em 1922 seu primeiro livro: Ryūkyū Kenpō: Karate.

Promoveu assim a mudança dos ideogramas que formavam a palavra Karate  (em japonês, a pronúncia dos ideogramas para Tō-de é Karate, comJigorō Kanō,o explicado anteriormente), que significavam “Mãos chinesas”, para Karate significando “Mãos vazias”

FUNAKOSHI Buscava assim uma desvinculação ao país rival militar do Japão e se aproximando, assim, do Império nipônico .

No processo de buscar o reconhecimento do Karate como arte marcial pelos japoneses, mestre Funakoshi ainda incluiu o ideograma

Dō ao nome, adotou o sistema de graduação kyū/dan e o uniforme, ou dōgi, ambos criados por Jigorō Kanō.

Alguns anos depois, um fato acabaria estremecendo as relações entre dois grandes mestres do período:

Gichin Funakoshi  e Chōki Motobu. Muitas lendas surgiram em torno de um episódio, onde Motobu teria derrotado um lutador russo que estava a desafiar e vencer diversos peritos em Jū-jutsu e outras artes japonesas em Tóquio. O que se sabe é que Motobu, já estabelecido no Japão Continental, aproveitando a onda de popularidade do Karate

Chōki Motobu

Chōki Motobu

iniciada por Funakoshi e a falta de instrutores de Karate que suprissem essa demanda acabou derrotando o lutador que entre outras coisas demonstrava  técnicas do Sambo, entortava barras de ferro no pescoço, etc. O acontecido conferiu grande fama à Motobu que passou a atrair muitos alunos (ROSS, 2009).

O problema se deu quando a “King Magazine” publicou ilustrações de Funakoshi, e não Motobu, derrotando o russo. Chōki suspeitou que Funakoshi fosse o mentor da alteração e teve grandes atritos com o fundador do Shōtōkan. De fato, em um de seus livros (Karate-Dō Nyūmon), Funakoshi  afirma que em solo japonês só reconhecia outros dois estilos de Karate: o Gōjū-ryū de Sensei Miyagi e o Shitō- ryū de Sensei Mabuni. No fim, era uma clara repulsa ao grupo de Motobu.

A partir daí diversos mestres de Okinawa vieram ao Japão continental ensinar a arte e uma explosão do Karate aconteceu no país. Passados cerca de 20 anos da primeira exibição atlética onde o Karate surge para os nipônicos,  se iniciava um processo de modernização que buscaria aproximá-lo de práticas como o Jūdō e o Kendō, as quais já possuíam sistemas competitivos e eram amplamente praticadas em escolas em todo país.

Apesar disso, o Karate sofreria um forte abalo, junto com tantas outras estruturas do Japão, devido aos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial que assolaram todo o país.

A partir da década de 30, Gichin Funakoshi empreendeu  diversas reformas e conseguiu abertura e aceitação do Karate no Japão, e diversos especialistas de Okinawa partiram ao Japão continental para ajudar na difusão da prática. Pelo seu trabalho incansável e grande disposição, Funakoshi conseguiu inclusive forjar amizades com pessoas como Jigorō Kanō e Morihei Ueshiba, tendo este último inclusive aceito Shigeru Egami, um dos principais alunos de Funakoshi, para receber lições especiais. Neste período as belas apresentações de Karate organizadas por

Morihei Ueshiba

Morihei Ueshiba

Funakoshi-Sensei tinham a participação de figuras como Kenwam Mabuni e Chōjun Miyagi.

É sabido de alguns movimentos desde a década de 40 para que o Karate se voltasse para uma forma competitiva a exemplo do que ocorria com Kendō e Jūdō, o que era desestimulado por Funakoshi e vários outros mestres da época. Mesmo assim, alguns alunos de Funakoshi passaram a praticar o que chamaram Jiyū Kumite (Disputa Livre) e há registro de alguns duelos a partir daí. Antes disso, Hironori Otsuka já havia abandonado a escola de Funakoshi para dar sua própria interpretação a várias técnicas e unir com seus conhecimentos em Karate o que já sabia de Jū-jutsu.

A Segunda Guerra Mundial trouxe consequências catastróficas para o Karate. A ilha de Okinawa, cenário de uma das batalhas mais ferozes da guerra, foi arrasada e documentos e objetos foram destruídos, apagando parte dos vestígios da história de Okinawa e do próprio Karate. Os bombardeios e combates no Japão continental também trouxeram consequências, como a destruição do Shōtōkan Dōjō, o prédio onde Funakoshi ministrava aulas e o falecimento do seu filho e braço direito, Gigo. Gigo, fragilizado pela alimentação com a ração dada ao povo pelo exército americano contraiu tuberculose e deixou o pai sozinho na estruturação do estilo.

Como se não bastassem as inúmeras adversidades, um decreto de proibição das artes marciais foi outorgado pelo exército americano. Curiosamente, a única arte que não foi proibida neste decreto foi o Karate, pois após as observações dos militares dos Estados Unidos foi considerado apenas um jogo ou diversão local. Na verdade, algo semelhante ao que os negros fizeram para ocultar a capoeira no Brasil foi feito pelos oquinauenses. Eles associaram a prática dos Kata (exercícios formais) a uma dança com tambores, apitos e movimentos enérgicos própria de Okinawa, o Senbaru Eisa.

No final da década de 50, quando faleceu o mestre Funakoshi, um triste fato ocorreu, mas foi camuflado pela maioria dos praticantes do Karate-Dō. Houve uma disputa entre os dois segmentos de discípulos do mestre, que seguiam caminhos bastante diferentes desde a morte de Gigo, no pós-guerra. Os  karate-ka da Shōtōkai, liderados por mestre Egami defendiam que o enterro de Funakoshi  Sensei deveria ser realizado pela sua família, enquanto os membros da Japan Karate Association (JKA), liderados por Masatoshi Nakayama, queriam que o enterro fosse realizado por esta associação em grande solenidade. Como a disputa acabou com a vitória do lado de Egami, Nakayama e seus seguidores não compareceram ao enterro, o que causou revolta e inimizades no mundo do Karate, principalmente dos seguidores de Egami.

Com todas as turbulências  que ocorriam, porém, a difusão do Karate pelo mundo era inevitável. Diversos militares ocidentais, que participavam da ocupação do Japão desde a Segunda Guerra Mundial, tiveram lições da arte das mãos vazias no período em que participaram das empreitadas bélicas e, ao regressar às suas terras, passavam a ensinar o que aprenderam;  Para evitar que a arte fosse disseminada  com aspectos técnicos e filosóficos distorcidos dos originais, vários mestres do Japão e de Okinawa passaram a se encaminhar para países da Europa e América, principalmente, para trabalhar no movimento de expansão do Karate. Em 1934, o próprio Chōjun Miyagi foi ao Havaí promover a difusão do Gōjū-ryū, aproveitando a oportunidade em que sua família abria negócios na localidade, sendo um dos primeiros a sair do Japão para tal feito.

Mestres da JKA rumaram para a Europa a fim de promover a difusão do Karate, entre estes, os principais foram: Sensei Kawasoe,  Sensei Enoeda, Sensei Taiji Kase, Sensei Hiroshi Shirai, Sensei Tomita, Sensei Hidetaka Nishiyama e Sensei Hirokazu Kanazawa.

No período que sucedeu a Guerra Fria ocorreram grandes evoluções na organização do Karate mundial, havendo a fundação da Federação Europeia de Karate (UEK) em 1965, seguida por outras federações continentais, à própria World Union of Karate Organization (WUKO) e organizações que pretendiam liderar o Karate mundialmente, como a International Traditional Karate Federation (ITKF). Com a expansão das práticas e o ganho do mercado sucedeu-se um imenso espírito de rivalidade entre escolas e estilos, que perduraria  até os acontecimentos que resultariam no reconhecimento da World Karate Federation (WKF) pelo Comitê Olímpico Internacional e na opção do Kyokushinkai de tornar-se esporte de contato (JKF, 2008).

O Karate na sociedade da informação.

Na década de 90 muitas mudanças tomaram o campo organizacional  do Karate-Dō como esporte, sendo que até 1996 havia duas federações internacionais, a União Mundial das Organizações de Karate (WUKO) e a Federação Internacional de Karate Tradicional (ITKF), com poder e representatividade equiparadas. Isto trazia problemas para que esta prática esportiva fosse reconhecida  pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) como esporte olímpico, o que repercutia também nos países no que diz respeito à difusão do Karate. Com a fusão da WUKO e da ITKF, surge em 1996 a Federação Mundial de Karate (WKF), favorecendo, então, o reconhecimento do Karate pelo COI, que aconteceria em 1999 (WKF, 2007).

A partir da influência do COI sobre o Karate, começaram a ocorrer diversas mudanças nas regras de competição, que foram tornando-o menos violento e possibilitando a diminuição do número de lesões, e também da gravidade das mesmas, nas competições e treinamentos.

Desta forma, o Karate no Brasil passou a se orientar por essas diretrizes  e também se modificou, como ocorreu nos demais países (CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE KARATE). Nesta perspectiva, o caráter dessa prática relacionado inicialmente à defesa pessoal (arte marcial) sofreu uma ruptura através da mudança das regras de competição, buscando uma aproximação maior com o modelo de esporte olímpico.

Apesar destas mudanças, houve muita resistência e alguns elementos da prática tradicional do Karate permaneceram e foram fomentados em competições esportivas. No entanto, em janeiro de 2009, o Karate sofreu um golpe drástico em suas regras, pois certos elementos exigidos pelo COI foram adotados mesmo sob protesto dos defensores de uma prática mais tradicional. O Karate se configurou,  assim, em uma manifestação cultural de nossa atualidade com uma faceta esportiva administrada  pela WKF, onde há competições em todas as partes do mundo com regras uniformizadas,  uso de protetores e a prática de exercícios formais pelos atletas que antes eram permitidos a poucos mestres de graduação avançada, mas também se apresenta de outras formas. Há as vertentes competitivas de práticas de maior contato, como o Karate Kyokushinkaikan e outras formas de Karate de Contato (LOWE, 1967; OYAMA, 1980). Há escolas tradicionais  que visam a defesa pessoal e o desenvolvimento  filosófico/espiritual de forma semelhante à de tempos passados. Há também práticas voltadas ao espetáculo de forma mais explícita, como o Karate Artístico e formais transcendentais, que chegam a se aproximar muito do Aikidō e da Yoga, como o Karate Shōtōkai e o Shintai-dō.

A história da introdução do Karate no Brasil está diretamente ligada aos imigrantes japoneses que aqui se estabeleceram após a Segunda Guerra Mundial. Com a formação da colônia japonesa em São Paulo a partir de 1955 foi estabelecida a primeira academia de Karate naquela cidade, pelo sensei Mitsusuke Harada do estilo Shōtōkan (CBK, 2009). Em 1959, o sensei Seiichi Akamine fundou a primeira academia do estilo Gōjū-ryū e em 1960 fundou a Associação Brasileira de Karate, e que mais tarde daria origem à Confederação Brasileira responsável pela administração do esporte.

Neste ano outros conhecidos mestres, oriundos também da colônia japonesa de São Paulo praticavam a arte em solo nacional, eram eles: Juichi Sagara, Yasutaka Tanaka, Tetsuma Higashino e Sadamu Uriu.

Em 1961 o Karate foi introduzido na Bahia pelo sensei Eisuke Oishi, levado ao Estado pelo Dr. Angelo Decaino. No ano seguinte, o estilo Shorin-ryū, um dos mais tradicionais em Okinawa, era trazido ao país pelo sensei Yoshihide Shinzato, considerado também o pai do Kobu-Dō de Okinawa em solo brasileiro.

Estes mestres foram, portanto, os introdutores do Caminho das Mãos Vazias no Brasil, em um processo de estruturação que levou cerca de 10 anos, aproximadamente de meados da década de 50 a meados da década de 60, e propiciou a introdução da arte no território nacional. Há diversos problemas políticos, onde grupos isolados pretendem validar a este ou aquele mestre a introdução oficial do Karate, o primeiro de muitos equívocos que podemos citar. Independente do trabalho de um sensei ou outro, as datas e registros amplamente divulgados não deixam dúvidas sobre a identidade dos pioneiros e nos convidam a sairmos do círculo vicioso de difusão de informações distorcidas acerca da introdução, difusão e desenvolvimento do Karate em nosso país. Lembramos ainda, de forma justa, o trabalho de outros mestres que colaboraram para o desenvolvimento do Karate brasileiro, sendo estes: Milton Osaka, Hironasu Yoki, Benedito Nelson Augusto Santos (o primeiro faixa-preta não nissei do Brasil), Denislon Caribé, Lirton Monassa, Ailton Menezes, Oswaldo Duncan, Raimundo Bastos, Márcio Bienvenutti, Claudio Trigo, William Felippe, Julio Takuo Arai, Koji Takamatsu (Wadō-ryū), Taeto Okuda, Yoshizo Machida, Yasunori Yonamine, Akio Yokoyama, Michizo Buyo, Akira Taniguchi e Seiji Isobe (Kyokushinkaikan).

Leia também :

Estilos de Karate

JKF-Federação Japonesa de Karate

WKF- World Karate Federation

Leia Também : http://www.brasilbudo.com.br/karate-datas-importantes/

 

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